Hotel na Índia hospeda somente pessoas à beira da morte

Devotos acreditam que morrer na chamada Casa da Libertação lhes libertará do ciclo da vida e da morte


BENARES – O hotel Mukti Bhawan, ou Casa da Libertação, na cidade sagrada de Benares, na Índia, tem uma estrita política de admissão: apenas hóspedes que morrerão em menos de duas semanas.
Locais como esse se espalham pela capital espiritual do país para acomodar durante seus dias finais os milhares de devotos que desejam exalar seu último suspiro no hotel, algo que, segundo a tradição hindu, lhes libertará do ciclo da vida e da morte.
Hotel Mukti  Bhawan, conhecido como Casa da Libertação, é um local sagrado para morrer na religião hindu 
Hotel Mukti Bhawan, conhecido como Casa da Libertação, é um local sagrado para morrer na religião hindu (Foto: EFE/Alberto Peña)
A crença popular diz que um banho no rio Ganges lava os pecados e ser incinerado em suas margens livra as almas da reencarnação, mas morrer na mais sagrada das localidades banhadas por suas águas é um passaporte direto para a salvação, algo reservado somente aos mais privilegiados.
Em uma viela a uma curta distância do rio, um pequeno jardim dá passagem a um edifício de fachada de cor cereja e janelas verdes. Logo após atravessar a porta da Casa da Libertação, a estética amável do exterior morre pelas mãos do cinza que inunda tudo.
Doze austeros quartos com as paredes descascadas se distribuem em dois andares ao redor de um pátio central, no qual jaz, solitária, uma velha cadeira de rodas. Onze portas abertas de par em par refletem uma capacidade quase completa.
A alta temporada ficou para trás com o sufocante calor que em maio e junho dá a muitos idosos o último empurrão rumo ao outro mundo. A verdade é que o hotel “está cheio a maior parte do tempo”, afirmou a nora do gerente, Jyotsna Shukla.
Os hóspedes do hotel, que cobra apenas as despesas de eletricidade, procedem em sua maioria do próprio estado de Uttar Pradesh ou do vizinho Bihar, e em algumas ocasiões chegam em ambulâncias.
“Muitas vezes estão saudáveis, portanto, temos que pedir para irem embora”, contou a mulher de meia idade, que administra a propriedade junto ao resto de sua família.
Jyotsna reconheceu que trabalhar em um lugar assim rende momentos “apavorantes”, especialmente quando se escuta os parentes dos moribundos chorarem, mas seu sorriso largo explica como o tempo a ensinou a encarar tudo com humor.
Entre risos, lembrou o caso de um homem que, após esgotar o prazo de duas semanas, voltou uma segunda vez disposto a conseguir a libertação de uma vez por todas. Ao ser perguntada se ele enfim havia conseguido, Shukla explodiu em uma grande gargalhada e negou com cara de incredulidade: “Teve que voltar uma terceira vez”.
O momento exato da morte é sempre difícil de antecipar, mas para os que lá se hospedam, parece estar na sala ao lado.
Radhika Devi aguardava a partida do marido, de 65 anos e doente terminal, recostada em uma cama de madeira sem colchão. Ele já havia deixado de comer e se alimentava unicamente de água e leite.
“Fomos juntos ao hospital, mas os médicos nos disseram que não havia esperança, portanto viemos pra cá. Ele conhecia a importância deste lugar”, declarou a mulher.
Todos os hóspedes devem estar acompanhados de pelo menos dois parentes no momento do registro, apesar de em alguns casos, como o de Devi, só um deles ter se alojado no hotel e o outro ter retornado apenas no dia da libertação, detalhou o jovem Gopal Chaubey, de 17 anos.
Gopal conhece todos os segredos do Mukti Bhawan, já que seu avô é o encarregado de cuidar do “templo” do lugar, um pequeno altar com brilhantes figuras de deuses, situado em uma esquina de azulejos brancos ao lado da recepção.
“Há uma oração e três oferendas ao dia”, relatou Gopal, ao assegurar que o edifício, fundado em 1958 pelo empresário Vishnu Hari Dalmia em memória de sua avó, é um “lugar sagrado”.
Nas escadas de acesso ao rio, as piras funerárias ardem durante as 24 horas dos 365 dias do ano para cobrir a alta demanda, elevando uma fileira de fumaça ao céu por cada alma libertada.








Via: Estadão
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